Telas dominam os carros novos hoje em dia. Quer gostemos ou não, todo painel tem um tablet gigante no meio e outra tela onde antes ficavam os mostradores. Algumas se integram ao painel como se sempre tivessem pertencido ali. Outras se destacam como se alguém tivesse colado um iPad no topo. De qualquer forma, elas controlam quase tudo na cabine.
Nem sempre foi assim. Mas, como na maioria das tendências tecnológicas, a mudança aconteceu eventualmente, e por motivos que ninguém realmente pediu. De repente, seu rádio, seu ar-condicionado e até coisas simples como o interruptor dos faróis vivem em algum lugar dentro de um labirinto de menus. Um solavanco ruim na estrada e seu dedo acaba apertando tudo, menos o que você queria tocar.
Então, como chegamos aqui? E a indústria pode voltar atrás? A história se resume a dinheiro, timing e uma longa cadeia de decisões que se acumularam.
A Primeira Onda (final dos anos 80)
Tudo começou como uma demonstração de engenharia, não por necessidade. Não foi um pedido do consumidor. Apenas nerds de tecnologia vendo o que podiam colocar em um carro.
A primeira tela sensível ao toque dentro do carro apareceu em 1986, de todas as marcas, em um Buick. A Interface Gráfica de Controle do Riviera usava uma pequena tela CRT que controlava o rádio, o HVAC e até mostrava diagnósticos básicos. Parecia um mini caixa eletrônico e estava muito à frente do seu tempo.

Os motoristas não entenderam. A GM acabou desistindo da ideia, e as telas sensíveis ao toque praticamente desapareceram durante os anos 90, enquanto a tecnologia subjacente continuava evoluindo.
Telas se tornam luxo (anos 2000)
As telas voltaram aos poucos no início dos anos 2000. A BMW causou impacto com a Série 7 de 2001 e seu sistema iDrive de primeira geração. Não era uma tela sensível ao toque (usava um botão giratório), mas mudou tudo. Mesmo com bugs, confuso e lento, incentivou outras montadoras a entrarem nessa onda.
Naquela época, essas telas eram pequenas e simples. Eram mais parecidas com um Palm Pilot, não um iPhone. E a sociedade via a tecnologia da mesma forma. Importava, mas ainda não controlava nossas vidas.
A Volvo até usava telas retráteis que se escondiam dentro do painel. Era algo legal do tipo “só quando você precisa”. Uma filosofia de design que quase nunca se vê hoje em dia.
Dois grandes fatores impulsionaram as telas:
Explosão do GPS: Por volta de meados dos anos 2000, unidades Garmin e TomTom estavam presas nos para-brisas por toda parte. As montadoras viram isso e decidiram que precisavam de seus próprios sistemas integrados.
Câmeras de ré: Surgiram em 2001 e passaram de “coisa estranha de luxo” para “item obrigatório” à medida que os carros ficaram maiores e a visibilidade piorou.

Mas o maior impulso foi algo simples: as telas ficaram baratíssimas. A fabricação de LED explodiu, os preços caíram e, de repente, custava menos para as montadoras instalar uma tela do que projetar e fabricar uma fileira inteira de botões físicos.
Então veio a recessão de 2008. Todo mundo precisou cortar custos. Botões eram mais caros. Telas foram a resposta fácil.
iPhone, Tesla e a Grande Mudança (anos 2010)
Tudo mudou nos anos 2010.
O Tesla Model S chegou em 2012 com uma tela gigante de 17 polegadas e quase nenhum botão. Parecia futurista e, mais importante para as montadoras, era simples de fabricar. Até marcas que não tinham interesse em carros elétricos copiaram imediatamente o estilo com muitas telas.
Ao mesmo tempo, nossos telefones estavam dominando nossas vidas. Os celulares ficavam cada vez mais rápidos enquanto o software dos carros ficava muito atrás. A maioria das pessoas mantém um carro por anos, mas troca de celular a cada poucas temporadas. A tecnologia automotiva simplesmente não conseguia acompanhar.
Então vieram Apple CarPlay e Android Auto em 2015, e tudo se encaixou. As pessoas pararam de se importar com o software embutido no carro, desde que a tela espelhasse seu iPhone. As montadoras viram isso como sinal verde para apostar ainda mais nas telas sensíveis ao toque.
Câmeras de ré se tornaram obrigatórias por lei em 2018, oficializando que “todo carro deve ter uma tela” como lei federal.
A Era da Sobrecarga (2020–Hoje)
Os anos de pandemia coincidiram com grandes investimentos em veículos elétricos, e o software virou a base de tudo. Controlar tudo por uma tela sensível ao toque era simplesmente mais barato.

Então as montadoras perceberam que as telas desbloqueavam outra coisa: assinaturas. Se um recurso está dentro do software, elas podem cobrar mensalmente por ele. Bancos aquecidos, potência extra, iluminação sofisticada... não importa. Uma tela torna isso possível.
E quando as pessoas começaram a se cansar das telas? As montadoras não recuaram. Apenas fizeram as telas maiores. Telas gigantes para o passageiro. Displays de largura total. Saídas de ar controladas por toque. O BMW i7 agora tem uma tela de cinema montada no teto traseiro para entretenimento no banco de trás!
A Reação e Um Pouco de Esperança
Os motoristas estão reagindo. Pesquisas mostram que as pessoas querem botões de novo. Botões grandes, simples e físicos que você pode usar sem olhar. Algumas marcas estão ouvindo. A Hyundai adicionou botões de volta no Ioniq 5. A VW prometeu recuar. Mercedes, Porsche, Audi, Genesis e outras mantêm os controles físicos vivos.
Mas não espere que painéis cheios de botões e interruptores reapareçam de repente. Telas são mais baratas. Elas não vão desaparecer completamente.
Há uma exceção, porém: os clusters de mostradores.

Algumas marcas de alto padrão estão silenciosamente voltando aos mostradores analógicos porque eles parecem especiais e dão mais personalidade ao carro. A Bugatti é um exemplo. Um velocímetro físico ainda parece mágico de um jeito que um painel digital em branco nunca será.
Se a mudança vier, será lenta. As telas dominam o carro moderno, e por enquanto, a indústria não tem um motivo real para abrir mão delas.